Tudo por um selfie

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Eles não medem esforços e arriscam a vida para fazer selfies nos lugares mais improváveis e perigosos do planeta. Estão em todo o lugar - nas cariátides do Chrysler Building, em uma lagoa infestada de tubarões ou à beira de um vulcão na remota Islândia. A tal ponto chegou a febre de selfies que, para prevenir acidentes, autoridades planejam controlar o acesso a locais perigosos e ainda proibir celulares e câmeras - o que  seria uma afronta à indústria do turismo.

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Em edição recente da famosa corrida de touros de Pamplona, na Espanha, meia dúzia de turistas afoitos foram socorridos com graves ferimentos, ao tentar fazer selfies diante dos touros em disparada, ao invés de fugir ou se abrigar. No ano passado, um casal de jovens turistas austríacos foi detido nas encostas do Monte Kilimanjaro, o mais alto pico da África. A acusação: acender fogueira para iluminar selfies noturnos, com risco de provocar fogo na savana. Algumas localidades no mundo se tornaram "selfie de sonhos" ao aparecerem em cenários de clips de música pop ou em séries de TV.

Um exemplo é o desfiladeiro de Fjadrargljufur, na Islândia, famoso do dia para a noite, após ser usado como cenário do clip 'I'll Show you Music', de Justin Bieber. O governo islandês foi forçado a fechar a área por dois meses, diante da invasão de grupos de turistas em busca de selfies em cenários com fauna e flora de grande fragilidade.

"O comportamento imprudente de um astro famoso pode provocar danos à natureza, se for seguido por uma multidão", advertiu o ministro do Meio Ambiente Gudmundur Ingi Gudbrandsson.

Com mais de 10 milhões de fotos e selfies registrados no Instagram, a Islândia tem se tornado o destino da moda principalmente entre jovens orientais que querem se fotografar à beira de geleiras eternas ou de crateras de vulcões. As paisagens da ilha nórdica ganharam fama de 'instagramáveis' - ou seja, sucesso garantido em posts nas redes sociais. Por outro lado, os moradores passaram a considerar os influenciadores digitais como uma ameaça ao seu estilo de vida. Ao longo de sua história, os nórdicos sempre dependeram da natureza para sobreviver e temem que os comportamentos dos visitantes comprometam o delicado equilíbrio ecológico de seu habitat.

No início do ano, um turista norte-americano dirigiu seu 4x4 alugado para fora da estrada, invadindo um campo de turfa, na tentativa de fotografar um grupo de cavalos selvagens. Acabou atolado no terreno instável e precisou ser resgatado por policiais, que o multaram por crime ambiental. Dirigir fora das estradas é estritamente proibido na Islândia pelo risco de causar danos à vida selvagem.

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A questão do turismo predatório se tornou um problema sério para países que há pouco tempo enxergavam no aumento de visitantes como uma bem-vinda fonte de renda para o comércio e hotelaria. Agora, algo mudou. Ecologistas e autoridades ambientais na Dinamarca, Irlanda, Islândia, Suécia e Noruega não sabem exatamente como lidar com os grupos de jovens de classe média da China, Japão e Coréia que chegam ávidos pelo melhor selfie. Os chamados influenciadores digitais são flagrados bebendo nas piscinas geotérmicas, sentados à beira de blocos de gelo, caminhando sobre musgos ou pilotando drones sobre animais selvagens.

A BBC News fez um programa sobre esta nova tendência, registrando que nem sempre os instagrammers sabem do que é permitido ou não nos países que visitam. O programa entrevistou Pall Jokull Petursson, um fotógrafo profissional que dedicou a vida registrando a natureza única do Circulo Ártico:

"Tenho uma sensação negativa sobre esta mania dos selfies e ânsia de fazer a foto perfeita para o Instagram. Eu nunca vi comportamentos tão irresponsáveis e perigosos. Eles escalam geleiras, sobem em rochas instáveis e caminham sobre turfa e musgo, que são frágeis e demoram anos para se recuperarem."

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Estes turistas predadores não são um fenômeno novo nem ameaçam apenas os santuários ecológicos do Norte. As cidades históricas da Europa também estão avaliando os danos causados pelas multidões desembarcadas em seus aeroportos e de imensos transatlânticos fretados. Um exemplo ostensivo é Veneza.

O escritor Salvatori Settis afirma que a cidade perde rapidamente sua identidade cultural, em uma guerra suicida com suas raízes históricas. Ele aponta que os antigos hábitos e tradições estão sendo afugentados pelo turismo em massa, como as tradicionais oficinas artesanais que produziam obras primas em máscaras e vidros - produtos que estão sendo substituídos por imitações feitas na China:

"- Se o presente esquecer o passado, Veneza estará perdida."

Somente no ano passado, a cidade recebeu 28 milhões de visitantes, algo como 80 mil por dia. O que excede os 36 mil turistas diários, que o professor Paolo Costa, da Universidade Ca'Foscar, indica como limite aceitável para a estrutura de uma das mais frágeis cidades do mundo e que, desde 1987, pertence ao patrimônio histórico da Unesco.

Para enfrentar a questão, surgiram propostas discutíveis, que até o momento não reverteram o quadro, como a taxa diária de 3 euros, que não é cobrada dos turistas de um dia, que chegam e partem nos grandes navios. Claro, depois de fazer selfies em uma gondola no Grand Canal e na sacada de um pallazzo.

Em contraste com a invasão de turistas, Veneza nunca teve tão poucos habitantes como hoje e o número continua a diminuir. Atualmente vivem na cidade 55 mil venezianos, metade dos 110 mil habitantes nos séculos XIX e XX. Segundo as estatísticas, a cada ano, cerca de mil famílias deixam a cidade. Se o esvaziamento continuar, em algum tempo, não haverá mais venezianos para receber os turistas na Piazza San Marco. O que provocou este triste comentário do professor Paolo Costa:

"- Ciao, ciao Venezia."

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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