Flávio Tavares: Socialista libertário

Ele entrou no Jornalismo por acaso e acredita que são os acasos que norteiam a profissão. Prisão política e longos períodos no exílio lhe renderam muitas histórias para contar.

Flávio Aristides Freitas Tavares - ou Flávio Aristides Freitas Hailliot Tavares, um nome lhe foi sonegado da documentação, mas que ele ainda quer recuperar - nasceu em 12 de junho de 1934. Lá se vão 72 anos e o tempo foi generoso com esse lajeadense, que afirma se sentir mais jovem do que aos 30 anos de idade: "Quando fiz 30, estava em Brasília, foi logo depois do golpe militar, e me sentia um velho, pensava: "Cheguei aos 30 e ainda não fiz nada?". Hoje, me sinto jovem nas atitudes". Antes dos 30, no entanto, Flávio já havia iniciado duas faculdades, se aventurado na política estudantil e começado uma carreira no jornalismo - seria isso "nada"?


Em Lajeado, levava uma vida comum de jovem católico: freqüentava escola marista e pertenceu à Ação Católica. Foi no colégio que conheceu o Irmão Nilo, que se tornou seu mentor ético. "Até então, eu conhecia os ritos da religião, mas o irmão nem rezava o rosário inteiro, ele nos dava era o ensinamento social cristão: a bondade, a solidariedade, o amor ao próximo. Isso é revolucionário até hoje", acredita. Após o Ginásio, Flávio mudou-se para Porto Alegre, a fim de cursar o Clássico no colégio Júlio de Castilhos. Foi uma grande ruptura viver na Capital, longe da família e tendo uma convivência impensada nas escolas do interior. O Julinho era o único colégio misto do Rio Grande do Sul e lá ele passou a estudar não só com gurias, mas com pessoas de outras religiões, como dois judeus marxistas que se tornaram seus amigos. Não demorou a entrar na política estudantil e encarar sua primeira atividade pública: a presidência do Grêmio Estudantil. "Era uma coisa muito importante, pois o Júlio era um grande colégio - inenarravelmente grande -, bom e responsável, sem termos de comparação com as escolas de hoje. Aprendi mais lá do que em duas faculdades, tanto pelo currículo como pela convivência", conta.


Uma de suas ações como presidente foi organizar uma passeata até o Palácio Piratini para reivindicar do governador Ernesto Dornelles a construção de um novo prédio para o colégio. Nesse período, Flávio vivia numa pensão, a Casa da JUC (Juventude Universitária Católica). "Ficava na Praça da Matriz, 168, lembro até o número! Era fantástico, nos trazia uma responsabilidade grande. Houve eleição para presidente da República - na qual Getúlio Vargas foi eleito - e moravam muitos integralistas lá. Eu e outro rapaz de Lajeado desenhávamos umas galinhas verdes no refeitório, imitando o Plínio Salgado, o chefe integralista. De manhã, quando iam tomar café, viam aquilo e se escandalizavam. Era brincadeira de menino, mas já era sintoma de politização", pondera.


Logo que chegou a Porto Alegre, sucedeu-se uma tragédia na família Tavares: seu pai sofreu um infarto fatal dentro do ônibus, quando voltava da Capital a Lajeado. "Foi meu primeiro contato com uma coisa chamada "Polícia"", diz. Isso porque seu pai recebera uma quantia alta em dinheiro, que levava consigo na viagem: "Dava para comprar duas geladeiras", acrescenta. O montante desapareceu e testemunhas afirmaram ter ouvido o delegado contando que havia "forrado o bolso" naquele dia. Seu pai já havia sido prefeito no interior e era uma figura conhecida. "Foi meu primeiro ato de revolta contra o Estado. Roubaram de um cadáver, uma coisa terrível", justifica.


Na faculdade, com política


Terminado o colégio, Flávio prestou vestibular para Direito na PUC. O que ele queria, na verdade, era ser médico, mas se achou mais preparado para a área de Humanas: "Até hoje, sou um médico frustrado", lamenta. Ainda assim, numa tentativa de se aproximar da Medicina, entrou para a faculdade de História Natural, a atual Biologia, na Ufrgs. Interrompeu o Direito por dois anos para se dedicar ao novo curso, mas acabou desistindo da História Natural, "mesmo sem confiar muito no Direito". Ele diz que seguiu nessa faculdade um pouco pela influência do irmão, advogado então apaixonado pela profissão, e mais por inércia. Nessa época, o jovem só tinha um interesse: a política estudantil. Foi eleito presidente da União Estadual de Estudantes por maioria absoluta, "o que era difícil para a esquerda, embora não houvesse a disputa partidária que tem hoje, não havia influência dos partidos".


Foi como membro do Conselho da União Nacional de Estudantes que Flávio começou a freqüentar o Rio de Janeiro, onde vive hoje, na cidade de Búzios. Também através da organização, teve a oportunidade de conhecer o presidente Vargas, poucos meses antes de seu suicídio. "A política estudantil era diferente naquela época, te projetava para coisas sérias", explica. Ele tinha dois pedidos a fazer: um avião para transportar a delegação gaúcha ao Congresso da UNE, no Rio, e a implantação de ambulatórios para casas de estudantes. O primeiro, Getúlio atendeu na hora, cedendo a aeronave da Presidência, e em relação ao outro prometeu encaminhar emendas para o orçamento, em setembro. Não teve a chance de cumprir a promessa, já que morreu em agosto.


No Jornalismo, via China


Flávio formou-se em Direito, mas nunca atuou como advogado, já estava ligado ao Jornalismo. Sua única experiência na área seria como consultor jurídico do Departamento Estadual de Portos, Rios e Canais, no final do governo Brizola. Isso porque, em 1954, teve a oportunidade de participar do Conselho da União Internacional de Estudantes, na União Soviética. Lá, os representantes latino-americanos foram convidados a conhecer a China: "De Moscou a China, oito dias de trem. Uma aventura!", conta. Foi na volta que Flávio se descobriu jornalista. Ele recebeu um convite para escrever uma série de reportagens sobre a viagem no semanário Hoje. A série teve o título, "meio pedante", de "Fui hóspede do Kremlim". Mas apenas a primeira matéria foi publicada, já que o chefe de redação, Sérgio Jockymann, acabou brigando com o proprietário do jornal. Ainda assim, a reportagem teve repercussão. "As pessoas começaram a me dizer: ?Mas tu é jornalista?. Disseram tanto que eu me convenci", fala modestamente.


Depois da passagem pelo semanário, Flávio teve outra rápida experiência no jornal A Hora e depois firmou-se em A Última Hora, de Samuel Wainer. Ele abraçou o projeto, mesmo recebendo menos de um terço do salário que ganhava em seu emprego de então, como diretor-executivo do Escritório dos Municípios, uma espécie de ONG fundada por José Bacchieri Duarte, com o objetivo de prestar assessoria política às prefeituras do interior.


A primeira tarefa foi cobrir o governador Leonel Brizola, exatamente por não ser brizolista. Logo, passou a chefe de reportagem, mas Flávio se considerava inexperiente para o cargo e pediu para sair, assumindo então a editoria de Política da cadeia de jornais. "Não havia esse termo aqui, Samuel copiou dos americanos. Ele foi dono de um grande jornal nacionalista, anti-americano, mas importou todos os termos deles, como copyright e copydesk", relembra. Nessa função, conheceu Carlos Bastos (hoje, diretor da TVE), que era seu subordinado e se tornou um amigo - "ele é uma figura humana excepcional e um dos grandes amigos que tenho em Porto Alegre".


Também nessa época, Flávio participou da única atividade sindical com que se envolveria, no Sindicato dos Proprietários de Jornal, classe na qual ele não se incluía. "Eu era um fedelho, um guri, não proprietário de jornal. Mas como o diretor de A Última Hora não gostava das reuniões, ia eu, por procuração. Na verdade, o único lá que era proprietário de seu jornal era o Breno Caldas, que atuava como um "papa medieval". Era respeitoso, mas tinha consciência do seu poder e o usava, ainda que muito educadamente", diz.


Flertando com Che


O jornalista realizou coberturas pelo jornal que foram marcantes na sua vida, como a Conferência da Organização dos Estados Americanos, em Punta del Leste, Uruguai, em 1961. Lá, conheceu Ernesto "Che" Guevara, que era o delegado de Cuba. Ficou maravilhado com a figura, assim como Brizola. "Ele era uma pessoa atraente e a revolução cubana era atraente, porque era social e libertária", lembra. Durante o evento, Brizola rompe com a delegação brasileira, mas não partiu de Punta sem antes se despedir de Che, que estava em uma crise de asma, mas melhorou ao saber que o governador queria lhe falar: "Acho que a doença era um pouco psicossomática", recorda Flávio.


Brizola conversou com Che a sós e na volta disse: "Isso é uma conferência da oligarquia latino-americana", o que, para Flávio, era "obviamente uma frase de Che". Em 1962, foi enviado à Argentina para fazer uma série de reportagens sobre o país e anteviu o golpe militar que se aproximava. "Eu conversei com um general lá e entendi que aconteceria o golpe, que se concretizou dois meses depois", lembra. Flávio diz que chegou a essa conclusão por acaso e garante: "Os acasos sempre norteiam o jornalismo. Claro que tu tens que ter intuição, mas os acasos contam, não é preciso ter poderes mágicos".


Então, aconteceu no Brasil um evento que, segundo ele, mudou suas perspectivas sobre a política: a tentativa de um golpe militar, em 1961. "Foi quando Brizola se agigantou. Aquilo mudou o Rio Grande e mudou a nós. A Campanha da Legalidade assim se chamou porque não se queria nada demais, não se queria uma revolução, o que se queria era que a Constituição fosse cumprida. Pela primeira vez na História, a mobilização popular e revolucionária de esquerda foi para cumprir a lei e não para derrubá-la", relata. Flávio conta que viveu intensamente esse período, escrevendo sua coluna direto dos porões do Piratini e se revezando entre Porto Alegre e Brasília. O jornalista atribui o ímpeto de Brizola à influência de Che. "Ele ficou impressionado com aquela figura e voltou outra pessoa de Punta", observa.


Aprendendo com as dificuldades


Flávio, que atuou como colunista político de A Última Hora, em Brasília, até 1968, afirma que aprendeu a escrever melhor depois do golpe militar, em março de 1964. "No início, a ditadura aqui foi muito branda. Nos vigiava, mas garantia a liberdade de imprensa. Depois, com a falta de liberdade, foi que eu me soltei, comecei a ser mais ousado, só que nas entrelinhas, apurei meu estilo", pondera. Foi assim por um tempo, mas não demorou para que Flávio passasse a conspirar contra a ditadura, na luta armada. Em 1967, foi preso, acusado de ser o Dr. Falcão, mentor de uma guerrilha no Triângulo Mineiro. "Fui preso com razão, estava mesmo envolvido, mas o mentor era o Brizola e a guerrilha era em Goiás. Claro que não contei isso aos militares, assumi tudo", diz.


Foram sete meses na cadeia até receber um habeas-corpus do Supremo Tribunal Federal. Então, voltou para o Rio, na condição de editor-chefe do jornal, mas com o decreto do AI-5, Samuel Wainer achou melhor que eles se afastassem das atividades da UH. Samuel voltou dois meses depois, porém Flávio não teve como retornar, pois já era conhecido como o Dr. Falcão, estava visado pela polícia mineira e suas colunas cada vez mais críticas. "A imprensa foi muito adulatória, nunca se referiu ao golpe como ?golpe?, mas como ?movimento militar de 31 de março?. Eu resolvi usar ?movimento de 1º de abril?", diverte-se.


Fora do jornal, acabou voltando para a luta armada e participou da libertação de nove marinheiros, dos 11 que haviam sido presos após um levante. A ação o levou de volta à prisão, em 1969: "Aí, eu fui conhecer a tortura, que eu duvidava que acontecesse daquela forma. Desconfiava que era propaganda da esquerda para desmoralizar os militares", confessa. Comprovou a veracidade na pele e afirma que no terceiro dia de prisão já estava "destruído". Foi solto após 30 dias, período em que pôde, inclusive, receber a visita de sua mãe. Ele estava na lista de troca de presos políticos pelo embaixador americano que fora seqüestrado. Foi despatriado e conseguiu asilo no México, onde viveu até 1974. Dentre os trabalhos que realizou no novo país, estava o de tradutor de telenovelas. Quase foi também dublador, ao lado de José Dirceu, mas o projeto acabou não vingando. A experiência valeu para aperfeiçoar o espanhol?


Algum tempo depois, passou a atuar no jornal Excelsior, pertencente a uma cooperativa de trabalhadores: "Aí sim, eu fui proprietário de um jornal", brinca, se referindo ao período em que freqüentou o Sindicato dos Proprietários. Como correspondente do veículo, Flávio foi viver em Buenos Aires, onde também escrevia matérias para O Estado de S. Paulo, assinando sob o pseudônimo de Júlio Delgado. "Eu assumi essa nova identidade. O Júlio Delgado escrevia até diferente do Flávio Tavares", conta. Sua permanência na Argentina terminou, forçosamente, em 1977, quando foi ao Uruguai para contratar um advogado para outro jornalista do Excelsior que fora preso lá.


Sem lenço nem documento


Ele saiu da prisão, mas Flávio foi seqüestrado pelo Exército uruguaio, que estava "sendo prestativo" com o Brasil. De imediato, ele foi vendado e algemado e assim permaneceu por 27 dias, dos seis meses que ficou preso. "Foi muito duro para mim. Na mesma noite, eu sofri dois fuzilamentos simulados. Morri, nem eu sabia se estava vivo. No 13º dia, fui pendurado, tenho seqüelas até hoje no ombro, tenho que fazer reeducação postural, porque eu não tomo medicamentos, sou contra, só tomo chazinhos", relata. Apenas no 28º dia, sua prisão foi legalizada e ele pôde receber visitas, ver sua ex-mulher e seu filho, Camilo, que nascera enquanto Flávio estava no México. Ele tem outra filha, de seu primeiro casamento, Isabela, fotojornalista, que mora no Rio. Camilo é cineasta e vive em São Paulo.


Sua soltura se deu graças à solidariedade do Excelsior e do Estadão, que levantaram a causa de seu correspondente. O jornal brasileiro mobilizou toda a imprensa para denunciar a prisão ilegal de Flávio. Sob pressão, o governo do Brasil pediu sua libertação. O problema era que o jornalista não podia voltar ao país natal e nem possuía passaporte. Em janeiro de 1978, foi expulso do Uruguai e se exilou em Lisboa, que havia passado recentemente pela Revolução dos Cravos, e se ofereceu para recebê-lo, com todas as pompas. Até Brizola foi recepcioná-lo no aeroporto. Lá, continuou seu trabalho de correspondente para os jornais mexicano e paulista. Flávio lamenta a perda de seus bens pessoais que foi deixando pelo caminho durante seus exílios. Teve que abandonar todos seus pertences no Brasil e depois tudo o que tinha na Argentina. "São coisas que formam nosso lar e nossa identidade", explica.


Em Portugal, Flávio e Brizola, que morava nos Estados Unidos, mas ganhara um passaporte português, trabalharam na formação do trabalhismo, que depois se transformou no projeto do PDT. "O partido já não existe mais como era, ficou tão idiotizado como os outros, e Brizola, antes de morrer, tinha plena consciência disso", afirma.


Apenas em 1979, com a anistia política, Flávio pôde retornar ao Brasil. Anos depois, se dedicou a escrever livros, saiu do jornalismo e escreve apenas um artigo dominical publicado em Zero Hora. Editou pela Record "Memórias do Esquecimento" e "O Dia em que Getúlio Matou Allende", ambos com suas memórias como líder estudantil, jornalista e preso político. O próximo será "Memórias do Exílio", no qual relata as vivências como exilado. Seus livros foram escritos na casa de Búzios, praticamente uma fortaleza, longe do burburinho da cidade, onde se submeteu a um exílio voluntário. Flávio diz que é muito indisciplinado e se não se esconder para trabalhar, não consegue terminar suas obras. "Eu não consigo dizer ?não?", admite. Talvez por isso, seu próximo livro, que deveria estar finalizado em maio, ainda não esteja pronto.


Atualmente, Flávio anda preocupado com a questão ambiental e com a alienação da população em relação a isso: "Estou descrente em relação às coisas com que as pessoas continuam a se preocupar, por exemplo, a atividade política. Acho que os partidos não têm solução no Brasil e que as pessoas não se preocupam mais com o que é fundamental, que nesse momento é a defesa da vida, do meio ambiente. Cada vez que venho a Porto Alegre, vejo a cidade mais destruída, num processo de verticalização. Destruíram-se áreas verdes imensas e ninguém se dá conta que essas coisas incidem diretamente na vida das pessoas", alerta.

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